Mulheres de México, Venezuela, Chile e Uruguai se reuniram no 8º Fórum Social Mundial de Migrações para avaliar os fluxos migratórios, especialmente na Venezuela e no México, a partir de um enfoque feminista.

A inédita crise migratória na Venezuela

A estimativa é que pelo menos 850 mil pessoas tenham emigrado da Venezuela desde 2015, indica a pesquisadora venezuelana Masaya Llavaneras Blanco. Os principais destinos são Colômbia, Peru, Chile, Equador e Panamá. Recentemente há uma leva que chega ao Brasil, apesar da fronteira em plena Amazônia dificultar o acesso.

O país enfrenta empobrecimento, uma inflação superior a 100% ao mês e desnutrição, que ocorria por excesso em anos recentes. Agora o problema é de déficit alimentar, que afeta principalmente as crianças.

“Obter um passaporte é um privilégio na Venezuela”, relata Masaya, o que precariza a situação dos que migram do país.

“Obter um passaporte é um privilégio na Venezuela”, relata Masaya, o que precariza a situação dos que migram do país.

Masaya revela que as mulheres representam quase metade dos emigrantes venezuelanos, entre as quais mais de 80% possuem entre 18 e 49 anos – ou seja, mulheres que trabalham, dentro ou fora de casa, e costumam ser as responsáveis por cuidar de crianças e idosos. A ausência dessas mulheres impacta sensivelmente toda a sociedade venezuelana.

A também venezuelana Rosa Elena destacou a exploração sexual e o tráfico de mulheres no contexto de migração. Ela exemplifica que até mesmo uma ex-Miss Venezuela foi presa por coordenar uma rede de prostituição na Espanha.

Rosa explica que trata-se de uma onda migratória de proporção inédita no país – e o ineditismo implica em que as organizações não possuem as condições e as parcerias necessárias para lidar com a situação. Ela entende que o principal objetivo dessa atividade no Fórum Social Mundial de Migrações é sensibilizar para a questão, para que se possa tecer redes internacionais de cooperação.

A uruguaia Alejandra Scampini, da organização feminista DAWN – Development Alternatives with Women for a New Era, relembrou que a Venezuela vivia uma situação oposta em 2006, quando recebeu o Fórum Social Mundial em Caracas: predominava o entusiasmo e a esperança. Ela entende que cabe uma análise crítica dessa trajetória, inclusive no que tange à democracia.

No debate posterior às apresentações, uma participante defendeu que falta analisar não apenas o processo venezuelano, mas a virada de uma conjuntura histórica inédita na América do Sul com vários governos considerados de esquerda para a atual onda conservadora, que se consolida com o resultado das recentes eleições no Brasil.

México: país migrante

Já a situação do México é bastante diversa. Quebrando uma hegemonia de décadas de governos alinhados à direita, um candidato de centro-esquerda venceu as últimas eleições e assume em dezembro. Outra diferença é que a história do país é marcada por processos migratórios, principalmente rumo aos Estados Unidos, envolvendo seus próprios cidadãos ou servindo como corredor de passagem para os migrantes centro-americanos que tentam a sorte rumo ao norte.

O país tem uma tradição de recebimento de exilados e refugiados, seja na Segunda Guerra Mundial, no período de ditaduras militares na América do Sul ou de guerras na América Central. Mas o fato é que hoje os migrantes não encontram as melhores condições de recebimento, devido à guerra ao narcotráfico, ao preconceito (que a mexicana Rita Benítez, do Centro de Direitos Humanos Frei Matías de Córdova, entende que é uma herança colonial bastante arraigada no México), à subserviência à política estadunidense vigente a partir de 2001 que tende a enquadrar qualquer imigrante como terrorista, entre tantos outros fatores.

Rosa, Masaya, Maya y Citlali.

Rosa, Masaya, Maya y Citlali.

Maya Casillas García e Citlali Santiago Lopez compartilharam sua experiência em Comitán, Chiapas, uma das principais portas de entrada da América Central para o México. Elas fazem parte da organização Kaltsilaltik, que significa “nossos corações” no idioma tojolabal e atua com migrantes e mulheres. Elas contam das mães que são presas na tentativa de migrar e são separadas de seus filhos, que também ficam presos, o que fere dois direitos: das crianças, de não serem presas, e o direito à unificação familiar.

Enquanto recentemente o mundo se comoveu com as crianças mexicanas que são encarceradas nos Estados Unidos e privadas do contato com sua família, cabe lembrar que o Estado mexicano faz a mesma coisa com os migrantes que atravessam o país.

Redes de cura de pessoas e territórios

Entre as pessoas que prestigiaram a atividade estava Sábia, uma brasileira que atua no CRAI – Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes em São Paulo. A organização está recebendo muitas venezuelanas e venezuelanos que não encontram condições de vida no norte do Brasil, nos arredores da fronteira com a Venezuela. Sábia se colocou à disposição para que se crie uma rede de cooperação entre organizações dos dois países.

O governo de Temer militarizou a fronteira do Brasil com a Venezuela, ou seja, a migração passou a ser tratada como questão militar, destaca a venezuelana Rosa. “E as mulheres tendem a ser utilizadas como moeda de troca, o que se complica dada à intensa sexualização da mulher venezuelana”, complementa.

Mulheres debatem condição das migrantes. Foto de Michele Torinelli

Mulheres debatem condição das migrantes. Foto de Michele Torinelli

São vários os temas que se entrecruzam com a problemática migratória. Para Rita, é bastante visível no México que a migração e o desaparecimento de pessoas se conectam com a apropriação de recursos naturais e com a militarização. Outro participante, um investigador mexicano, entende que há uma crise migratória, de êxodo, e que há outra crise, que é não conseguir receber essas pessoas. “É preciso curar os territórios para que as pessoas não tenham que se deslocar”, disse. Mas, tendo em vista que se trata de uma dinâmica global, essa cura só pode se dar de maneira antissistêmica. “Migremos do sistema”, disse um representante da Via Campesina em outra atividade do Fórum.

É preciso cuidar dessas pessoas. É preciso curar essas mulheres. É preciso curar esses territórios.

É preciso cuidar de nossas redes. Alejandra destacou a importância do Fórum Social Mundial como espaço de encontro e articulação, e da necessidade de dar continuidade e fortalecer essa trama – e, frente à conjuntura desafiadora, mais do que nunca.

O 8º Fórum Social Mundial de Migrações ocorreu de 02 a 04 de novembro na cidade do México.

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