Paulo Lara (Lavits), na Cúpula dos Povos, na Argentina, 2017

Paulo José Lara (*)

 

O espírito do tempo não é bom para os movimentos sociais. Há uma combinação entre estratégias e projetos nos universos: político, judiciário, tecnológico, financeiro e de segurança que, articulados, utilizam seus dispositivos para imprimir um ambiente de esvaziamento e contração das demandas progressistas. Esse esforço se apresenta no âmbito local, regional e global e se articula através de novas formas de dominação e hegemonias tecnológicas e econômicas.

Mas, há também o que se responsabilizar da parte dos movimentos sociais e campos da esquerda. Metidos em discussões que pouco se atualizaram nos últimos anos e muitas vezes correndo para lados e idiomas diferentes, reproduzem uma série de vícios que já se provaram prejudiciais para a busca de justiça, mais direitos e igualdade.

Neste sentido, a reunião da Cúpula dos Povos foi um sintoma grande desta engenharia. A primeira impressão, para além de certo esvaziamento e segmentação, é a de que a montanha-russa política que vivemos nos últimos 10 ou 15 anos nos deixou com a sensação de vertigem e de que não estamos completamente recuperados dos violentos trancos que sofremos.

Pode-se, no entanto, identificar o desejo e a necessidade de escutar, falar, agir e congregar-nos. As mulheres, como sempre, carregam uma força fora do comum e uma capacidade de despertar indignação e luta que se encontra muito à frente de outras demandas. O Fórum Feminista frente ao livre comércio, sempre cheio, foi, de longe, o que mais amplamente contribuiu com energia e temas urgentes e fundamentais para a superação do conservadorismo político e social que nos ronda.

Foi dentro deste marco que o painel “Comércio Eletrônico e Revolução 4.0” aconteceu, contando com Sofia Scasserra, da UNI Americas, da Argentina; Lucas Tasquetto, da Universidade Federal do ABC, no Brasil;, Sven Hilbig, da organização alemã Pão para o mundo da Alemanha e Evelin Heidel, líder do projeto Escáneres de Libros “Do It Yourself”.

Ali, se tratou da agenda da OMC em relação ao “comércio eletrônico”, e o que fica claro é que o termo esconde um projeto de desregulamentação e precarização de serviços, comércio e propriedade intelectual de modo a facilitar a ação e logística de grandes empresas do capitalismo info-financeiro sem os entraves intermediários, compreendendo aí, trabalhadores, produção, o papel do estado e a inclusão da sociedade civil. Há que se compreender que, em se tratando de comércio eletrônico, subsiste a ideia de que o termo abrange muito mais do que compra e venda na internet, abarcando o fluxo de dados pessoais, a isenção de taxas e impostos para o comércio global, a intensificação do poder das grandes empresas da internet (notadamente a GAFA: Google, Amazon, Facebook e Apple) e a solidificação de um sistema logístico e infraestrutura que não está nas mãos nem do estado, nem da sociedade civil, nem na de trabalhadores. Em resumo, trata-se da diminuição de impostos, de uma fuga das leis e regras internacionais e territoriais e uma amplificação do poder de negócio do capitalismo informacional.

Esta tendência afeta enormemente o mundo do trabalho já que envolve temas como a intensiva maquinização da produção e da logística além de intensificar o trabalho precarizado e não remunerado, já que a produção e comercialização em redes informacionais é, em maior medida, monopolizada por grupos que se beneficiam da produção coletiva de informações e de dados pessoais para traçarem estratégias de incremento do lucro e exploração política e social das informações. O universo financeiro, imaterial por essência, se combina com a volatilidade das informações digitais de modo a coordenar projetos que combinem marketing comercial e político direcionados, enxugamento e deterioração da mão de obra e um plano subjetivo que induz a sociedade a acreditar na liberdade como liberdade de escolha entre produtos, formas de pagamento, entrega e preço.

Os temas em torno das novas arquiteturas tecnológicas de informação e de comunicação encerram um desafio enorme do ponto de vista das transformações sociais. O capitalismo de plataforma, representado pelo novo modelo de negócios baseados em aplicativos desregulamentados, a criação de criptomoedas que pouco se mostraram eficientes do ponto de vista de desenvolvimento social e autonomia financeira dos povos, o crescente monopólio de empresas de entretenimento audiovisuais, as constantes ameaças à liberdade na internet, através do consumo de banda, fim da neutralidade da rede, avanço de grandes empresas sobre as infraestruturas dos estados e a marginalização de grupos, pessoas e movimentos na rede mundial são só alguns dos exemplos que necessitam de profunda reflexão e ação por parte de forças progressistas.

É neste contexto que convocamos os envolvidos nestes temas a participarem da formulação de propostas e projetos que colaborem com o aprendizado, crescimento e desenvolvimento dos movimentos sociais para que possam abarcar a agenda destes novos temas de forma a estarem preparados para os crescentes desafios que o capitalismo nos imporá nas próximas décadas. Um importante marco de ação, aprovada pela declaração final da cúpula dos povos, é o Fórum Social Mundial de 2018, que será realizado em Salvador, Bahia, entre os dias 13 e 17 de março de 2018. Seria salutar contar com a presença das organizações, pesquisadores e ativistas da área de tecnologia para debater estes tópicos dentro do FSM, um encontro histórico e de grande patrimônio na luta pela igualdade e direitos dos povos.

 

(*) Paulo Lara (Lavits)

Doutor em Política pela Goldsmiths, Universidade de Londres, com trabalho sobre espectro-eletromagnético e cultura e mestre em Sociologia da Cultura pela UNICAMP tendo estudado Mídia Tática. Participou do movimento de rádios livre, software livre e mídia tática. Trabalhou nos Ministérios da Comunicação (2005-2007) e da Cultura (2012-2013) e é professor e pesquisador da Rede Latino Americana de estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS, da COALIZÃO DIREITOS NA REDE) e do grupo de pesquisa sobre Informação, comunicação, tecnologia e Sociedade (ICTS-UNICAMP).

 

 

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