Organizações do Conselho Internacional  e Grupo Facilitador do FSM 2018 em Salvador realizaram nesta sexta-feira (23) uma Coletiva de Imprensa para divulgar os balanços da edição de 13 a 17 e os resultados da reunião do CI de 17 e 18 últimos.

Com saldo considerado positivo, superando até mesmo expectativas das entidades organizadoras, o evento foi apresentado em números – 80 mil participantes, 2 mil atividades em sete principais territórios e 70 locais ocupados – e em avaliação política.

Foi um FSM mobilizado pela resistência e também pela proposição de alternativas, conforme apontou Damien Hazard, da Vida Brasil e Conselho Internacional. A economia solidária esteve nos quiosques e esteiras de emprenderores, mas também nos debates sobre o modelo econômico e como superá-lo. Foram 19 eixos temáticos, das lutas por democracia ao combate ao racismo, com o chamado Vidas Negras Importam. Convergências aproximaram  lutas anti-coloniais, anti-capitalistas, feminismos, povos indígenas, contra o sistema financeiro e o debate dos novos paradigmas.

A luta por justiça climática foi exemplo de pauta abraçada de forma comprometida pelas lutas sociais neste fórum, com outras visões sobre o modo de vida e organização humana. O slogan Resistir é Criar, Resistir é Transformar. definido em Salvador, no ano passado, para a edição 2018, dialogou fortemente com o evento e esteve presente nas várias iniciativas, propostas e agendas apresentadas na Ágora dos Futuros, que encerrou o fórum na Praça das Artes da UFBA.

Marielle, presente!

Marcado pela necessidade da reação ao conservadorismo e os ataques à democracia, e por importantes eventos das mulheres negras e dos povos tradicionais, o FSM foi abalado pela execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson, no Rio de Janeiro.  A notícia impactou todo o FSM, provocou protestos, atividades paralisadas e marchas pelo território. Na avaliação de Rita Freire, da Rede Ciranda e Conselho Internacional, as organizações que estiveram no FSM não vão sossegar até que se desmonte este estado de coisas no Brasil e que se tenha justiça para a execução de Marielle.

A Assembleia Mundial das Mulheres, realizada dia 16 de março, no Terreiro de Jesus, recebeu o nome de Marielle Franco e aprovou 10 pontos que unificam as lutas das mulheres do mundo: o Decálogo Feminista Inegociável. Entre os itens, o combate mundial ao feminicídio, a garantia do poder político para as mulheres, o direito ao corpo livre das imposições do Estado ou da Igreja, o fim do uso do corpo das mulheres como arma de guerra.  Juntas, participaram da aprovação desses pontos mulheres que travam lutas por libertação de seus povos, como as palestinas, as curdas, as sarauis.

Nacionalistas radicais marroquinas pressionaram contra pronunciamentos das mulheres do Saara Ocidental – ocupado por seu país -, criando momentos de tensão em uma assembleia considerada forte, que suspendeu demais atividades do FSM na manhã de 16 de março. Ao final, todas as vozes das lutas das mulheres, incluindo as que se levantam por direitos no Marrocos, foram ouvidas. Participaram mulheres dos quatro continentes, especialmente as da America Laina e Magreb Mashreq.

Outra atividade concorrida e marcada  foi a Assembleia Mundial das Democracias, que reuniu 15 mil pessoas no Estádio do Pituaçu e contou com lideranças sociais e políticos convidados pelas entidades organizadoras, incluindo o presidente cassado de Honduras, Manuel Zelaya, e o ex-presidente Lula. O FSM teve ainda uma Assembleia dos Povos, Movimentos e Territórios em Resistência e um Ato do Lançamento do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), aberto em seguida em Brasília, em contraposição ao Fórum Mundial da Água (FMA).

O fórum em Salvador também foi pródigo em manifestações artísticas e culturais que “pipocaram” pelos territórios, integrando ambientes e atividades, como observou Ametista Nunes, do Grupo Tortura Nunca Mais e do Grupo Facilitador do FSM. Ela explicou que o Grupo de Trabalho de Cultura procurou fugir a uma costumeira reprodução alienada do sistema capitalista, que separa a luta  social, a ciência e as artes como coisas segmentadas, enfraquecendo-as. Mas a preparação do FSM foi reativa a essa visão e precisou superar dificuldades constantes na busca de outros caminhos, orientados pelo slogan Arte antes que tarde. No fim, explicou Ametista, o FSM mostrou que as lutas sociais e as manifestações culturais andam juntas para resistir, criar e transformar.  O FSM teve sua construção autogestionada, praticamente sem recursos – o que levou inclusive ao cancelamento de palcos a apresentações programadas – mas recebeu manifestações populares, palhaços e poetas, mulheres do hip hop e show no Acampamento da Juventude – no Parque de Exposições – com artistas de Salvador e a convidada Tulipa Ruiz.

Futuro do FSM

Primeira parceria a se comprometer com a realização do FSM 2018 em Salvador, acabando por sediá-lo como seu principal território, a Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi representada na coletiva pelo reitor João Carlos Salles, que também ofereceu avaliações positivas.

A universidade é um espaço da sociedade e seus grandes congressos debatem temas similares aos do FSM e, na visão do reitor, o evento esteve naturalmente em harmonia com o ambiente acadêmico. E essa integração poderá se repetir no futuro, segundo ele, se o FSM voltar a Salvador. A UFBA não apenas sediou o FSM mas envolveu a comunidade em atividades próprias sobre as agendas trazidas pelo FSM e apoiou o evento com sua infraestrutura. Além da Universidade Federal, integraram o território ampliado do FSM a Universidade Estadual (UNEB), o Instituto Federal (IFBA) e localidades afastadas do centro, até Itapoã.

A possibilidade da volta do FSM ao Brasil foi aventada nas perguntas da imprensa, lembrando que edições já se repetiram em cidades como Porto Alegre e Tunes e que o sucesso do evento verificado na capital baiana tornou-se um argumento potencial para reivindicá-lo novamente.

Mauri Cruz, da Abong e do Conselho Internacional,  informou que há diferentes sugestões de países em condições potenciais de acolher um FSM e que o Conselho Internacional definiu prazo até final de maio para que as opções sejam avaliadas. Os países indicados também poderão sediar as próximas reuniões do colegiado. Estão na lista de possibilidades Suiça, Portugal, México e Brasil.

Organizador de outras edições do FSM em Porto Alegre, Mauri lembrou que as condições para um FSM ainda serão avaliadas. Organizações do México, por exemplo, têem reivindicado a realização do FSM mas ainda procuram se organizar para isso. Outros paises foram indicados, mas ainda não se candidataram.

Acolhido pela cidade

Entre aspectos positivos do FSM em Salvador, externos à organização esteve a grande acorrida à cidade, movimentando também seus serviços e empreendimentos. A federação hoteleira da Bahia registrou uma taxa anormal de ocupação da cidade, superior a 82% das vagas, mesmo que outra grande parte das delegações e de visitantes tenha contato com diferentes formas de hospedagem popular e solidária. Mauri lembrou que essas pessoas vieram a Salvador por conta própria ou das organizações que as convidaram. Foi um FSM de fato autogestionado que contou com a boa acolhida da cidade e seus serviços.

Enquanto movimentos sociais defendiam o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro nas tendas do FSM, uma ocorrência cardíaca grave levou um participante estrangeiro a ser atendido pelo serviço públicoe submetido a uma cirurgia delicada, de 9 horas. O atendimento do SUS foi elogiado pela família e o paciente saiu do risco de morte após alguns dias na UTI. O Grupo Facilitador e a Secretaria do CI providenciaram a vinda da esposa do paciente e sua acolhida em Salvador, uma vez que a recuperação e o acompanhamento médico impedirão a família de viajar por um bom período.

Coletivas no FSM

A coletiva de imprensa de sexta-feira foi a quarta e última realizada pelo Grupo Facilitador no período.  O GF agradeceu às emissoras TVE e Rádio Educadora, TVT e TV Kirimurê, rádios  comunitárias e mídias escritas presentes, e lamentou o fato de que pela primeira vez a EBC não tenha participado nem feito cobertura do FSM. Houve inclusive convite formal e oferta de pagamento das despesas de jornalista pela organização do FSM, mas a empresa ex-pública e hoje governamental recusou a pauta.

Presidenta cassada do Conselho Curador da EBC, Rita Freire mencionou ainda orientação que teria sido dada pela empresa para reduzir a repercussão do assassinato de Marielle Franco e seu motorista no jornalismo de seus veículos, o que foi denunciado por trabalhadores.

A primeira coletiva de imprensa na quinzena do FSM foi dedicada às mídias livres que participaram da Comunicação Compartilhada do FSM, ajudando a promover uma cobertura independente. A segunda foi voltada à toda imprensa de Salvador, com dados sobre os preparativos do fórum.

Uma terceira marcou a abetura do FSM 2018, já no território do fórum, no auditório PAF 1, em Ondina, com mais de 150 jornalistas presentes e 500 credenciados. A última, de balanços, distribuiu também o documento com informações gerais sobre o evento, além da carta da Assembleia Mundial de Mulheres e o Decálogo Feminista Inegociável.

Documentos – Coletiva de Imprensa:

Dados do FSM 2018 para balanço

Moção aprovada no Conselho Internacional de 18 de março  – Marielle

Decálogo Feminista Inegociável – 16 de Março

 

Comunicação Compartilhada do FSM 2018

Confira fotos da coletiva, por Dêja Chagas

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